Resenha de Filme: La La Land: Cantando Estações

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Se é para escrever sobre La La Land: Cantando Estações, que se comece logo pela cena de abertura: um belíssimo plano sequência passeando por um enérgico número musical nascido dum engarrafamento a caminho de Los Angeles. É de tirar o fôlego e apresenta de cara o tom onírico que acompanha toda a narrativa do mais recente trabalho do jovem diretor Damien Chazelle, do aclamado Whiplash (2014). Lá no meio dessa multidão, correndo também atrás de seus sonhos, estão os personagens de Emma Stone e Ryan Gosling num primeiro encontro furtivo e nada amistoso. 

Nessa solar e colorida La La Land dos sonhos dos aspirantes a estrelas, a Mia de Emma Stone é uma atriz novata que trabalha no bar de um estúdio famoso. Já o Sebastian de Ryan Gosling é um genioso pianista de jazz; talentoso, porém desacreditado. Dos encontros eventuais, sonhos e desejos da dupla se confundem e aos poucos vão se fazendo de combustível para lutarem por suas metas traçadas desde antes de se esbarrarem na engarrafada ponte. La La Land: Cantando Estações demonstra certo interesse em trabalhar com a temática do destino, tão comum ao cinema clássico norte-americano. 

E como não poderia deixar de ser diferente, o filme de Damien Chazelle faz questão de reverenciar toda uma época. E talvez nessa de homenagear a Hollywood dos musicais, usando da famigerada metalinguagem para registrar a si próprio, La La Land: Cantando Estações empalideça um pouco. Os movimentos bruscos e de terminações quase deselegantes do casal dançando pouco fazem jus a leveza de Gene Kelly, Fred Astaire e Ginger Rogers. Alguns vão me chamar de ranzinza, mas a ideia da imperfeição ao dançar fazer parte do script - afinal, tanto Gosling como Stone não são dançarinos - não me convence mesmo... Mas é preciso registrar o visível esforço da dupla para que os números saiam a contento. 

Adiante ao incômodo pessoal do "sapateado básico" do casal, La La Land: Cantando Estações supera essas limitações técnicas relativas a dança quando volta seu olhar para o lado mais romântico da história. O ótimo entrosamento de Gosling e Stone já havia sido visto no divertido Amor a Toda Prova (2011) e aqui os dois levam essa química para outro nível. O irritadiço Sebastian de Ryan Gosling é a escada perfeita para sua parceira brilhar. E Emma Stone está realmente encantadora! Flutua! Seus olhos imensos carregam na esperança. E essa esperança reflete na maioria das vezes do lado de cá. Empatia pura. 

Apesar da admirável leveza e deliciosa ironia, La La Land: Cantando Estações também guarda seus momentos da mais pura melancolia. Para mim foi até uma surpresa, não esperava mesmo. E pensar na estrutura da então comovente e imprevista sequência final é lembrar de toda a importância da montagem - tal qual uma amálgama guardando os sonhos de ambos afim de fazer daquilo uma unidade - e da trilha sonora boa aos ouvidos, mas ao mesmo tempo de notas incômodas. A singela canção City of Stars é como um elegante recadinho lembrando que os sonhos podem ser mesmo apenas sonhos... 

Eu poderia ainda comentar sobre a inteligente divisão do filme através das quatro estações, delimitando assim o tempo, o espaço, as sensações e os sentimentos. Ou mesmo de como La La Land: Cantando Estações acarinha e igualmente faz tributo ao jazz como poderosa expressão tanto artística como de resistência. Isso, principalmente, se lembrarmos do tom bruto e opressor como esse mesmo jazz é retratado no trabalho anterior desse diretor. Praticamente um acerto de contas. Mas daí já estaria me alongando demais, e nem precisa, esse belo filme fala por si. 

- La La Land: Cantando Estações (La La Land), de Damien Chazelle, EUA, 2016. 

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