Um espectador sem muitas informações (como foi meu caso) previamente pode achar que Boca do Lixo é uma obra sobre a saudosa produtora paulista que brindou o cinema nacional com muitas pérolas. Porém, a realização do novato diretor carioca Flavio Frederico, apesar de ambientada em São Paulo , é baseada na autobiografia de Hiroito de Moraes Joanides (no filme Daniel de Oliveira). Sujeito que vem a ser um dos maiores criminosos brasileiros nas décadas de 50 e 60, tendo assim como área de atuação a então conhecida Boca do Lixo paulistana, área que confluía prostituição e trafico de drogas. Pode-se dizer que Hiroito foi precursor na distribuição de entorpecentes no Brasil.
O roteiro cometido por Frederico e mais uma colaboradora é baseado no livro escrito pelo próprio Hiroito, que preso nos anos 70, passou mais de 20 anos na cadeia. Assim como uma significante parcela de psicopatas, sociopatas e criminosos que surgem frequentemente na nossa sociedade, Hiroito era de boa família, tratado como o “filhinho da mamãe”. A primeira acusação que teve contra si, logo apresentada no inicio do filme, é de que teria assassinado o próprio pai. A partir desse fato, somos levados por sua vida delinqüente, de envolvimento com prostitutas, as quais sinceramente dizia que amava e o seu exacerbado consumo de drogas. Aparentemente o homem teria entrado na vida de traficante porque gostava tanto de psicotrópicos que desejava ficar o mais perto possível deles.
Outra faceta representada no filme seria a de que Hiroito não se detinha a meter bala em quem se colocasse contra ele. Não pensava duas vezes e um simples zombeteiro poderia comer capim pela raiz se cruzasse com ele em um mau dia. Esse viés explosivo rende um bocado de violência, que surge muitas vezes estilizada, ainda com um verniz de filmes policiais B. Mesclada as varias cenas de sexo, deve-se afirmar também que Boca do Lixo tem uma forte essência de uma boa produção exploitation. O mau-caratismo impera naquela localidade, trazendo a tona elementos perversos, o que por vezes soa exagerado. Como é representado na obra, o caráter documentarial que poderia ser tratado é deixado de lado em detrimento à construção de um filme que parece se preocupar apenas em entreter platéias adultas. Não que seja ruim, mas torna-se apenas mais do mesmo.
Até pelo apelo de criar uma obra com foco na ação, com personagens cinematográficos, o filme em si não esmiúça muito a historia desse chefão do crime. O diretor Flavio Frederico cria alguns rodeios na narrativa, ainda captando elementos de road-movies que não chegam a funcionar como ele possivelmente imaginou, fazendo assim algumas passagens parecerem redundantes. Porém, o bom elenco formado por Milhem Cortaz, Hermila Guedes, Jéferson Brasil e Paulo César Peréio acompanham Daniel de Oliveira de maneira competente. Trazendo a consistência necessária para que o público se preocupe o mínimo com os personagens, que ainda um tanto marginais conseguem se fazer carismáticos. Mesmo Boca do Lixo não sendo essa maravilha toda, em alguns momentos surpreende e vale sim uma conferida.

5 comentários:
Sempre Bom Apoiar o cinema nacional...ás vezes é difícil, mas temos que fazer...temos essa obrigação!
haha, e quando eu cliquei achei que era o documentário de Coutinho. Não vi ainda esse filme, mas fiquei curiosa. Já está na lista.
abraços
Não conhecia, mas... A curiosidade matou a gato? rs
Muito interessante.
Lembro de você me falando sobre ele... Mas não sei se confiro. É interessando a ideia do cinema nacional apostando no cinema de gênero. Em compensação, mesmo que o tenha indicado no fim, sua resenha não foi das mais amistosas com o filme. Talvez, um dia, se eu tiver a oportunidade, eu veja... (adoro Daniel de Oliveira, só pra constar).
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